sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Vida Social do Padre Avelino Vilela

A vida social do Padre Avelino Vilela na paróquia de Bucos e em Cabeceiras de Basto, na comunidade de São Nicolau, ficou marcada por um forte compromisso com o bem-estar coletivo, a solidariedade e o desenvolvimento social da freguesia. Em 1996, a Casa de Sanoane de Cima, na pessoa de Manuel Braz, protagonizou um gesto de grande generosidade ao ceder à Igreja um terreno para fins sociais. Este espaço, conhecido como campo Trás dos Santos — hoje parque de estacionamento da Igreja de Bucos — destinava-se inicialmente à construção de um lar de terceira idade, respondendo a uma necessidade crescente da população envelhecida. Posteriormente, a Igreja, sob a orientação do Padre Avelino Vilela, decidiu avançar com a construção do lar em Vila Boa, entendendo que essa localização oferecia melhores condições para o projeto. O terreno cedido manteve, ainda assim, uma função relevante social ao serviço da comunidade, sendo adaptado para parque automóvel, facilitando o acesso às celebrações e atividades paroquiais. A criação do lar revelou-se uma mais-valia fundamental para a freguesia. Desde a sua abertura, em 16 setembro de 2007, tem acolhido diversos utentes, proporcionando cuidado, dignidade e acompanhamento na fase mais sensível da vida. De forma simbólica e significativa, a mãe de Manuel Braz, da Casa de Sanoane de Cima, foi a primeira utente a integrar esta instituição, marcando assim o início de uma resposta social de grande importância. Contudo, a ação social não se limitou ao espaço físico do lar. O Centro desenvolveu também um serviço de apoio domiciliário, assegurando cuidados essenciais como limpeza, alimentação e acompanhamento a idosos nas suas próprias casas. Esta resposta permitiu alargar o apoio a um maior número de pessoas, promovendo qualidade de vida e proximidade humana. Paralelamente, a vida social da paróquia sempre esteve profundamente ligada à vivência religiosa. Eventos como procissões, celebrações festivas e as visitas pascais mobilizam a comunidade, reforçando laços de identidade, fé e pertença. Estas iniciativas, para além do seu significado espiritual, assumem também um papel agregador, fortalecendo a coesão social Bucos e em São Nicolau. Assim, a ação do Padre Avelino Vilela destaca-se não apenas no plano religioso, mas também no social, deixando um legado de dedicação, visão comunitária e serviço, que continua a marcar a vida da paróquia e de todos aqueles que dela fazem parte.

Vida Pastoral do Padre Avelino Vilela

A vida pastoral do Padre Avelino Vilela nas freguesias de Bucos constitui um exemplo marcante de dedicação, proximidade e serviço à comunidade. Desde o dia 1 de agosto de 1973, assumiu com zelo a missão de acompanhar espiritualmente os fiéis, tornando-se uma presença constante e confiável na vida quotidiana da paróquia. Mais tarde, a partir de 1 de agosto de 1996, alargou o seu ministério também à freguesia de São Nicolau, reforçando ainda mais o seu compromisso pastoral. O seu trabalho sempre se distinguiu pela atenção personalizada aos fiéis, sobretudo àqueles que enfrentam dificuldades. A escuta atenta — verdadeira audição das preocupações, angústias e esperanças das pessoas — tornou-se uma das marcas do seu ministério. O padre não se limitava ao espaço da igreja: ia ao encontro das pessoas, conhecendo de perto as suas realidades. As visitas a lares e a casas com enfermos foram uma constante ao longo dos anos. Nestes momentos, levava não só os sacramentos, mas também palavras de conforto, esperança e presença humana, fundamentais para quem vive situações de fragilidade. Esta proximidade ajudou a fortalecer laços comunitários e a tornar a Igreja mais viva e atuante. No campo da formação, destacou-se pela promoção da catequese para crianças, reconhecendo a importância de educar na fé desde cedo. Incentivou a participação ativa das famílias e investiu na preparação de catequistas, criando um ambiente de aprendizagem sólida e contínua. Paralelamente, dedicou-se à organização de grupos paroquiais, fomentando a participação comunitária e o espírito de colaboração. Estes grupos — sejam de jovens, de ação litúrgica ou de apoio social — contribuíram para dinamizar a vida paroquial e para envolver diferentes gerações na missão da Igreja. Assim, a vida pastoral do Padre Avelino Vilela é marcada por um profundo sentido de serviço, pela proximidade às pessoas e por uma ação concreta e contínua em favor da comunidade, deixando um legado de fé vivida, partilhada e cuidada.

Vida liturgica e sacramental em Bucos e Cabeceiras de Basto

A vida litúrgica e sacramental constitui o coração da vivência cristã, sendo o espaço privilegiado onde a fé se torna celebração, encontro e compromisso. É na liturgia que a comunidade se reúne para louvar, agradecer e escutar a Palavra, fortalecendo a sua identidade e renovando a sua missão no mundo. A celebração da Eucaristia ocupa um lugar central neste caminho. Mais do que um simples rito, ela é memorial vivo, alimento espiritual e sinal de unidade. Ao participar na Eucaristia, os fiéis entram em comunhão com Cristo e entre si, alimentando a esperança e a caridade que se traduzem na vida quotidiana. É neste encontro que a fé se aprofunda e ganha sentido concreto. O acompanhamento espiritual dos fiéis é igualmente essencial. Através do diálogo, da escuta e da orientação, cada pessoa é ajudada a discernir o seu caminho, a enfrentar dificuldades e a crescer na sua relação com Deus. Este acompanhamento não é apenas para momentos de crise, mas um processo contínuo de amadurecimento espiritual e humano. O sacramento da reconciliação, vivido nas confissões, oferece um espaço de cura e renovação interior. Nele, os fiéis encontram a misericórdia, reconciliam-se consigo mesmos, com Deus e com a comunidade. Este gesto de humildade e confiança permite recomeçar, fortalecendo o compromisso com uma vida mais coerente com o Evangelho. Para além destes momentos centrais, existem diversas atividades complementares que marcam a vida da comunidade. Os batizados celebram o início da vida cristã, acolhendo novos membros na fé e na comunidade. Os funerais, por sua vez, são momentos de profunda esperança, onde se confia a vida daqueles que partiram à misericórdia de Deus, oferecendo consolo e união aos que ficam. Assim, a vida litúrgica e sacramental não se limita a ritos isolados, mas constitui um caminho contínuo de encontro, crescimento e partilha. É através dela que a comunidade se constrói, se fortalece e se torna sinal vivo de fé, esperança e amor no mundo.

Professor de Religião e Moral

O professor de Religião e Moral desempenha um papel que vai muito além da transmissão de conteúdos. É, acima de tudo, um educador de consciências, alguém que acompanha o crescimento humano, ético e espiritual dos alunos, ajudando-os a compreender o mundo e o seu lugar nele. Esta missão encontra um exemplo concreto na figura do padre Avelino Vilela, cuja dedicação marcou o Colégio Dr. Joaquim Santos e a Escola C+S de Cabeceiras de Basto. Ensinar, neste contexto, não se limita a explicar conceitos religiosos ou valores morais. Trata-se de promover o pensamento crítico, o respeito pela diversidade e a capacidade de diálogo. O padre Avelino Vilela destacou-se precisamente por essa capacidade de criar pontes entre diferentes culturas, crenças e visões do mundo, incentivando os alunos a refletir sobre questões fundamentais como o sentido da vida, a justiça, a solidariedade e a dignidade humana. A dimensão do aconselhamento é igualmente central. Muitas vezes, o professor de Religião e Moral torna-se uma referência de confiança, alguém disponível para ouvir, orientar e apoiar em momentos de dúvida ou dificuldade. Neste campo, o padre Avelino foi para muitos alunos uma presença próxima e humana, sempre pronto a escutar com atenção, a aconselhar com sabedoria e a apoiar com empatia, contribuindo para o seu equilíbrio emocional e crescimento interior. Desenvolver é outra das suas missões essenciais. Desenvolver valores, atitudes e competências que permitam aos alunos tornarem-se cidadãos conscientes, responsáveis e comprometidos com o bem comum. Através da sua ação pedagógica, o padre Avelino Vilela promoveu o respeito, a tolerância, a responsabilidade e o espírito crítico, deixando uma marca duradoura na formação pessoal de várias gerações. Os assuntos abordados são variados e profundamente relevantes: ética, cidadania, direitos humanos, convivência social, espiritualidade, culturas e religiões do mundo, bem como temas atuais como a paz, o ambiente, a inclusão e a justiça social. Estes temas, trabalhados com proximidade e sensibilidade, ajudaram os alunos a construir uma visão mais ampla e humanista da realidade. Assim, o professor de Religião e Moral é um guia no caminho da formação integral, alguém que educa para o saber, mas também para o ser. Na pessoa do padre Avelino Vilela, este papel ganhou rosto e significado, contribuindo de forma marcante para a construção de uma comunidade escolar mais consciente, solidária e humanamente enriquecida.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Os dois Netos na Casa de Sanoane de Cima

Na bonita Casa de Sanoane de Cima, numa aldeia tranquila rodeada de campos verdes e caminhos antigos, havia dois meninos muito especiais: Miguel e Lourenço. Eles eram primos, mas acima de tudo eram grandes amigos. Sempre que iam visitar o avô, os dois chegavam cheios de alegria e vontade de brincar. Logo que entravam na casa, corriam para o hall grande e iluminado. Ali havia brinquedos guardados com carinho: carrinhos, bolas, bonecos e até algumas coisas antigas que pareciam esconder histórias. Sentados no tapete, Miguel e Lourenço inventavam aventuras. Mas a brincadeira não ficava só dentro de casa. Quando o sol brilhava lá fora, os dois corriam para a eira, aquele largo de pedra onde tantas gerações já tinham trabalhado e brincado. às vezes eram exploradores, cavaleiros ou jogadores de futebol Ali começava uma nova aventura. — Vamos jogar às escondidas! — dizia o Miguel. — Agora somos caçadores na floresta! — respondia o Lourenço. Escondiam-se atrás dos muros, das mesas e das pedras antigas. Imaginavam que estavam numa grande aventura, seguindo pistas e procurando tesouros secretos. O riso deles ecoava pela eira, enchendo o lugar de vida e alegria. Depois de tanta corrida e brincadeira, vinha a melhor parte: a cozinha.O cheirinho da comida chamava os dois meninos, que chegavam com as faces rosadas e os olhos brilhantes. — Avô, temos fome! — diziam quase ao mesmo tempo. Sentavam-se à mesa, comiam com gosto e contavam as aventuras do dia. A cozinha ficava cheia de conversas, gargalhadas e histórias. No final do dia, antes de irem descansar, Miguel e Lourenço faziam sempre a mesma coisa: abraçavam-se como dois grandes companheiros de aventuras. O avô olhava para os dois com ternura e pensava no quanto era bonito vê-los crescer assim, unidos pela amizade. E com um sorriso no rosto dizia baixinho: — Que a vida vos dê sempre amizade, alegria e muitos sonhos para realizar. O avô deseja o melhor do mundo para vocês, meus queridos netos.E assim, na Casa de Sanoane de Cima, entre o hall, a eira e a cozinha, ficavam guardadas memórias felizes que os dois levariam para toda a vida.

domingo, 8 de março de 2026

O Cruzeiro de Bucos

O cruzeiro de Bucos, feito de sólida pedra granítica, ergue-se numa antiga encruzilhada de caminhos, lugar onde desde tempos antigos se cruzavam as veredas usadas pelos habitantes da terra. Situado na rechã de Sanoane, este cruzeiro marca um ponto de encontro entre caminhos rurais, servindo ao mesmo tempo de referência para quem passava e de símbolo de fé para a comunidade. Ao longo de muitas gerações, o cruzeiro foi testemunha silenciosa da vida local: lavradores que seguiam para os campos, vizinhos que se encontravam nas suas caminhadas, e viajantes que ali faziam uma breve pausa. A sua presença simples, mas digna, recorda as tradições religiosas e culturais que moldaram a identidade de Bucos.Mais do que uma peça de pedra, o cruzeiro representa memória e continuidade. Na rechã de Sanoane, onde os caminhos se encontram, permanece como sinal de proteção, história e devoção, ligado às famílias e às vivências que marcaram aquela terra ao longo dos séculos.

O Cruzeiro, A Casa de Sanoane de Cima e a Figueira Centenária

Esta tríade patrimonial na rechã de Sanoane — o Cruzeiro de Pedra, a Casa de Sanoane de Cima e a Figueira Centenária — compõe um cenário de profunda memória histórica e espiritualidade, típico das aldeias onde o tempo parece ter preservado a essência da vida comunitária e da devoção.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Casa de Sanoane de Cima e o Retrato de José Henriques Basto ou Bastos

Tal como a casa, também este rosto se apresenta sem excessos. O olhar firme, a postura medida e o fato cuidadosamente composto revelam uma relação profunda com o tempo e com a responsabilidade. Não há aqui gesto supérfluo: há presença. Uma presença que se construiu entre paredes conhecidas, ritmos agrícolas, estações repetidas e uma vida feita de continuidade. A Casa de Sanoane de Cima não era apenas o lugar onde se habitava; era o espaço onde se aprendia a resistir, a cuidar e a permanecer. Este homem pertence a esse universo. A sua imagem parece trazer consigo os mesmos valores que moldaram a casa: solidez, discrição e sentido de pertença. As marcas que hoje atravessam a fotografia — riscos, dobras, sinais de uso — são semelhantes às que o tempo deixou na casa. Não são feridas, mas testemunhos. Confirmam que tanto a imagem como a arquitetura foram vividas, atravessadas por gerações, tocadas pelo quotidiano.Integrar este retrato neste livro é reconhecer que a história da Casa de Sanoane de Cima não se escreve apenas através de paredes, pátios ou terrenos, mas também nos rostos que lhe deram vida. A casa permanece porque foi habitada. E este rosto permanece porque pertence à Casa.

Enquadramento Geográfico da Casa de Sanoane de Cima

A Casa de Sanoane de Cima implanta-se na parte alta da freguesia de Bucos, ocupando uma posição dominante e estrategicamente escolhida no território. Esta localização elevada permite uma relação direta com a paisagem envolvente, garantindo boa exposição solar, controlo visual sobre os campos agrícolas e proximidade aos recursos naturais essenciais à subsistência.O território que envolve a casa caracteriza-se pela presença de campos de socalcos, modelados ao longo de séculos pelo trabalho humano. Estes socalcos, sustentados por muros de pedra seca, refletem uma adaptação inteligente à morfologia acidentada do terreno, permitindo o cultivo em encostas e o aproveitamento eficiente da água e dos solos. A organização dos campos evidencia uma agricultura tradicional de montanha, fortemente dependente da regularização do relevo.A proximidade às linhas de água, naturais e canalizadas, foi determinante para a fixação da casa neste local. Estas linhas asseguravam o abastecimento doméstico e a rega dos campos, estruturando a ocupação agrícola e a distribuição das culturas. A presença de tanques e levadas confirma a importância da água como elemento organizador do território e da vida quotidiana.Os acessos à Casa de Sanoane de Cima desenvolvem-se a partir da estrada municipal, da qual derivam caminhos antigos de ligação à aldeia e às propriedades agrícolas. A casa situa-se num ponto de confluência de caminhos tradicionais, nomeadamente os que ligam a Portela, a igreja e a Cruz de Prados, assumindo-se como lugar de passagem e referência no tecido rural. A proximidade ao cruzeiro reforça o seu enquadramento simbólico e territorial, associando o espaço habitado a práticas religiosas, percursos comunitários e marcos identitários da freguesia.Do ponto de vista natural, a casa insere-se num território de clima de montanha, influenciado pela proximidade da Serra da Cabreira. Os invernos são frios e rigorosos, com precipitação significativa, enquanto os verões tendem a ser amenos, favorecendo determinadas culturas agrícolas e condicionando as soluções construtivas adotadas. Esta realidade climática explica a robustez das paredes de pedra, a organização compacta dos volumes e a orientação cuidada da edificação.A Casa de Sanoane de Cima integra-se, assim, de forma harmoniosa num território moldado pela interação contínua entre natureza e ação humana. A sua implantação revela um profundo conhecimento do meio físico, traduzido na escolha do local, na gestão da água, na organização dos acessos e na relação equilibrada entre habitação, campos agrícolas e paisagem envolvente.

A Casa de Sanoane de Cima - Implantação

A Casa de Sanoane de Cima surge implantada na paisagem rural, integrada de forma natural no terreno agrícola que a envolve. De volumetria simples e robusta, a construção revela a arquitetura vernacular da região, marcada por paredes espessas em pedra, rebocadas ou parcialmente expostas, e cobertura tradicional em telha cerâmica. O conjunto transmite uma sensação de permanência e sobriedade, resultado de sucessivas adaptações ao longo do tempo, feitas mais por necessidade do que por desenho formal. O pátio e os anexos agrícolas reforçam a vocação produtiva da casa, enquanto a presença de árvores antigas — com destaque para a oliveira centenária — estabelece uma ligação profunda entre o edificado, o ciclo da terra e a memória das gerações que ali viveram e trabalharam. Mais do que um objeto isolado, a casa afirma-se como lugar vivido, testemunho silencioso de práticas agrícolas, relações familiares e de uma forma de habitar enraizada no território.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um Casamento Memorável e Internacional

O casamento mais internacional Alguns momentos ficam gravados na memória não apenas pelo que acontece, mas pelo que representam. Este foi um deles. O casamento entre um menino brasileiro e uma menina russa aconteceu num dos lugares mais belos do Rio de Janeiro, com a Baía de Guanabara aberta à nossa frente, tranquila e luminosa, como se também ela testemunhasse aquele encontro improvável e, ao mesmo tempo, tão natural. Ali, num mesmo espaço, reuniram-se pessoas vindas de diferentes países e culturas. Havia brasileiros, alemães, portugueses, chilenos, russos, italianos e espanhóis. As conversas cruzavam-se em várias línguas, os sotaques misturavam-se, e, ainda assim, todos se entendiam. A alegria era comum, simples e partilhada, como se naquele dia o mundo tivesse decidido caber à mesma mesa. O almoço foi um momento à parte. A comida brasileira, cuidada e requintada, trouxe sabores conhecidos para uns e descobertas para outros. Entre pratos, brindes e risos, sentia-se que cada detalhe reforçava a ideia de união — não apenas entre duas pessoas, mas entre histórias de vida, trajetos familiares e geografias distantes. Ao recordar este casamento, o que permanece não é apenas a beleza do lugar ou a diversidade dos convidados, mas a sensação rara de harmonia. Foi uma celebração do amor que não conhece fronteiras e da capacidade humana de criar laços para além da língua, da origem ou do mapa. Um dia em que o mundo pareceu mais pequeno, mais próximo e, sobretudo, mais humano.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Uma História, Uma Casa e Uma Família

Uma História, uma Casa e uma Família Há casas que não são apenas paredes. São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo labor e pela memória de quem ali viveu. A Casa de Sanhoane é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas, e seguiram adiante para que outros pudessem continuar. Dizem as memórias paroquiais que tudo começa, ou pelo menos começa a ser lembrado, com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fosse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele. A casa já existia antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que ela entra na história escrita, que se fixa nos livros, que ganha rosto. Simão morre em 1710 — e ali as escrituras silenciam o nome da casa. Mas não o apagam. No mesmo ano aparece António Delgado, “da Casa de Sanhoane”, a continuar a linhagem, como se a casa fosse um fôlego que passava de geração para geração, sempre vivo, sempre presente. Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme: pedra granítica, eira ampla que refletia o sol das colheitas, alpendre que acolhia conversas e descanso, e a escadaria de vinte degraus que levava ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a mesma paciência de quem espera que o tempo conte a sua história. À frente, um cruzeiro, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez um sinal de proteção, talvez um testemunho de fé, talvez apenas um ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro. A sala, virada para a eira, era o coração da casa: era ali que se partilhava o pão, as histórias, as dificuldades e as alegrias. Ali se discutiam casamentos, colheitas, invernos rigorosos, e as idas e vindas de quem procurava trabalho longe. Nos quartos, duas janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias. Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre Bucos. Geração após geração, muitos passaram por aqueles degraus. Uns ficaram, outros partiram. Mas todos levaram consigo um pedaço da casa, e todos deixaram nela um pedaço de si. Hoje, a Casa de Sanhoane continua — não apenas na pedra, mas na memória familiar, no orgulho de quem sabe de onde veio, e no esforço de preservar o que sempre foi mais do que património: foi e é identidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

VisitBucos, Seus Moinhos

Os Moinhos de Bucos: Guardiães da Água e da Memória Em Bucos, aldeia de montanha moldada por vales estreitos e pela força tranquila do rio Peio, os moinhos de água ergueram-se durante séculos como verdadeiras máquinas da sobrevivência rural. Mais do que simples engenhos, eram centros de encontro, trabalho e partilha — lugares onde a água, a pedra e o esforço humano se misturavam para dar vida ao pão de cada dia. Os moinhos de água funcionam aproveitando a força da corrente. A água é desviada do rio através de levadas e açudes, conduzida com precisão até às rodas que, ao girar, transmitem movimento ao eixo mestre. Este movimento chega às mós — grandes pedras circulares que transformam o milho e o centeio em farinha fina, base da broa que sempre perfumou as cozinhas de Bucos. Era uma engenharia simples, mas engenhosa, criada para trabalhar em harmonia com a natureza. No curso do rio Peio, encontram-se alguns dos mais emblemáticos moinhos da freguesia, cada qual ligado a uma casa e a uma família que os mantiveram ativos ao longo de gerações. Entre eles destacam-se os moinhos da Casa do Serra, da Casa da Senra, da Casa de José, da Casa de Sanoane de Cima e da Casa da Pereira. Alguns ainda conservam a estrutura original; outros guardam apenas as ruínas que recordam tempos de intensa atividade agrícola. Mas todos, sem exceção, contam histórias de vida: de madrugadas frias, de sacas de milho ao ombro, do som cadenciado das mós, do cheiro a farinha quente e do convívio entre vizinhos. Assim, os moinhos de Bucos não são apenas peças de arqueologia rural. São testemunhos vivos de uma cultura de trabalho comunitário, da adaptação humana ao território e da profunda ligação entre a aldeia e o seu rio. À medida que o tempo passa, continuam a ecoar — na paisagem, na memória e no orgulho de quem os viu, os usou ou apenas os guarda como parte da sua identidade.

VisitBucos em Maio

Para os amantes da natureza e da fotografia de pássaros, Bucos revela o seu lado mais encantador no mês de maio. É quando a paisagem ganha novos tons de verde: as árvores estão brotando, cheias de vida, e os pássaros saiem do período de criação dos seus filhotes. Nas primeiras horas da manhã, a cena é especialmente rica. Não é raro observar três ou quatro indivíduos da mesma espécie juntos, pousando entre galhos jovens, voando baixo e explorando o ambiente em busca de alimento. Esse comportamento torna o momento ideal para quem gosta de observar, registrar e se conectar com a dinâmica natural das aves em liberdade. Com clima ameno e luz suave, típica dessa época do ano, Bucos se transforma num verdadeiro refúgio para quem aprecia o silêncio, o canto dos pássaros e a fotografia de vida selvagem em seu estado mais autêntico. Uma visita nesse período é mais do que um passeio — é um encontro íntimo com o ciclo da natureza.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Uma História, uma Casa e uma Família- A Casa de Sanoane de Cima

Há casas que não são apenas paredes.São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo trabalho, pela resistência e pela memória de quem ali viveu. A Casa de Sanoane de Cima é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas e seguiram adiante para que outros pudessem continuar. Dizem as memórias paroquiais que tudo começa — ou pelo menos começa a ser lembrado — com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fizesse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele. A casa já existiria antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que entra na história escrita, que se fixa nos livros e ganha rosto. Em 1710, as memórias paroquiais, referem a morte de Simão Delgado e no mesmo ano surge o casamento de António Delgado, também referido como “da Casa de Sanhoane”, dando continuidade à linhagem, como se a casa fosse um fôlego passado de geração em geração — sempre vivo, sempre presente. Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme:pedra granítica, eira ampla onde o sol refletia o tempo das colheitas, alpendre que acolhia cereais e abrigo, a escadaria de trinta degraus que conduzia ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a paciência de quem sabe esperar. À frente, um cruzeiro de pedra, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez sinal de proteção, talvez testemunho de fé, talvez apenas ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro. A sala, voltada para a eira, era o verdadeiro coração da casa.Ali se guardavam o pão e as histórias, as dificuldades e as alegrias. Próximo dali que se falava de casamentos, de colheitas, de invernos rigorosos e das idas e vindas de quem partia à procura de trabalho longe. Nos quartos, as janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias. Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre a montanha Bucos. Geração após geração, muitos subiram e desceram aqueles degraus.Uns ficaram. Outros partiram.Mas todos levaram consigo um pedaço da casa — e todos deixaram nela um pedaço de si. Hoje, a Casa de Sanoane de Cima, com a família Henriques Braz, continua viva.Não apenas na pedra, mas na memória familiar; não apenas no passado, mas no presente. Um verdadeiro ecomuseu de objetos antigos, de histórias contadas e silêncios respeitados. Um lugar onde o orgulho de saber de onde se vem se transforma em responsabilidade de preservar o que sempre foi mais do que património:foi — e continua a ser — identidade.