sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Casa de sanoane de Cima e o Retrato de José Henriques Basto ou Bastos

Tal como a casa, também este rosto se apresenta sem excessos. O olhar firme, a postura medida e o fato cuidadosamente composto revelam uma relação profunda com o tempo e com a responsabilidade. Não há aqui gesto supérfluo: há presença. Uma presença que se construiu entre paredes conhecidas, ritmos agrícolas, estações repetidas e uma vida feita de continuidade. A Casa de Sanoane de Cima não era apenas o lugar onde se habitava; era o espaço onde se aprendia a resistir, a cuidar e a permanecer. Este homem pertence a esse universo. A sua imagem parece trazer consigo os mesmos valores que moldaram a casa: solidez, discrição e sentido de pertença. As marcas que hoje atravessam a fotografia — riscos, dobras, sinais de uso — são semelhantes às que o tempo deixou na casa. Não são feridas, mas testemunhos. Confirmam que tanto a imagem como a arquitetura foram vividas, atravessadas por gerações, tocadas pelo quotidiano.Integrar este retrato neste livro é reconhecer que a história da Casa de Sanoane de Cima não se escreve apenas através de paredes, pátios ou terrenos, mas também nos rostos que lhe deram vida. A casa permanece porque foi habitada. E este rosto permanece porque pertence à Casa.

Enquadramento Geográfico da Casa de Sanoane de Cima

A Casa de Sanoane de Cima implanta-se na parte alta da freguesia de Bucos, ocupando uma posição dominante e estrategicamente escolhida no território. Esta localização elevada permite uma relação direta com a paisagem envolvente, garantindo boa exposição solar, controlo visual sobre os campos agrícolas e proximidade aos recursos naturais essenciais à subsistência.O território que envolve a casa caracteriza-se pela presença de campos de socalcos, modelados ao longo de séculos pelo trabalho humano. Estes socalcos, sustentados por muros de pedra seca, refletem uma adaptação inteligente à morfologia acidentada do terreno, permitindo o cultivo em encostas e o aproveitamento eficiente da água e dos solos. A organização dos campos evidencia uma agricultura tradicional de montanha, fortemente dependente da regularização do relevo.A proximidade às linhas de água, naturais e canalizadas, foi determinante para a fixação da casa neste local. Estas linhas asseguravam o abastecimento doméstico e a rega dos campos, estruturando a ocupação agrícola e a distribuição das culturas. A presença de tanques e levadas confirma a importância da água como elemento organizador do território e da vida quotidiana.Os acessos à Casa de Sanoane de Cima desenvolvem-se a partir da estrada municipal, da qual derivam caminhos antigos de ligação à aldeia e às propriedades agrícolas. A casa situa-se num ponto de confluência de caminhos tradicionais, nomeadamente os que ligam a Portela, a igreja e a Cruz de Prados, assumindo-se como lugar de passagem e referência no tecido rural. A proximidade ao cruzeiro reforça o seu enquadramento simbólico e territorial, associando o espaço habitado a práticas religiosas, percursos comunitários e marcos identitários da freguesia.Do ponto de vista natural, a casa insere-se num território de clima de montanha, influenciado pela proximidade da Serra da Cabreira. Os invernos são frios e rigorosos, com precipitação significativa, enquanto os verões tendem a ser amenos, favorecendo determinadas culturas agrícolas e condicionando as soluções construtivas adotadas. Esta realidade climática explica a robustez das paredes de pedra, a organização compacta dos volumes e a orientação cuidada da edificação.A Casa de Sanoane de Cima integra-se, assim, de forma harmoniosa num território moldado pela interação contínua entre natureza e ação humana. A sua implantação revela um profundo conhecimento do meio físico, traduzido na escolha do local, na gestão da água, na organização dos acessos e na relação equilibrada entre habitação, campos agrícolas e paisagem envolvente.

A Casa de Sanoane de Cima - Implantação

A Casa de Sanoane de Cima surge implantada na paisagem rural, integrada de forma natural no terreno agrícola que a envolve. De volumetria simples e robusta, a construção revela a arquitetura vernacular da região, marcada por paredes espessas em pedra, rebocadas ou parcialmente expostas, e cobertura tradicional em telha cerâmica. O conjunto transmite uma sensação de permanência e sobriedade, resultado de sucessivas adaptações ao longo do tempo, feitas mais por necessidade do que por desenho formal. O pátio e os anexos agrícolas reforçam a vocação produtiva da casa, enquanto a presença de árvores antigas — com destaque para a oliveira centenária — estabelece uma ligação profunda entre o edificado, o ciclo da terra e a memória das gerações que ali viveram e trabalharam. Mais do que um objeto isolado, a casa afirma-se como lugar vivido, testemunho silencioso de práticas agrícolas, relações familiares e de uma forma de habitar enraizada no território.