quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Um Casamento Memorável e Internacional
O casamento mais internacional
Alguns momentos ficam gravados na memória não apenas pelo que acontece, mas pelo que representam. Este foi um deles.
O casamento entre um menino brasileiro e uma menina russa aconteceu num dos lugares mais belos do Rio de Janeiro, com a Baía de Guanabara aberta à nossa frente, tranquila e luminosa, como se também ela testemunhasse aquele encontro improvável e, ao mesmo tempo, tão natural.
Ali, num mesmo espaço, reuniram-se pessoas vindas de diferentes países e culturas. Havia brasileiros, alemães, portugueses, chilenos, russos, italianos e espanhóis. As conversas cruzavam-se em várias línguas, os sotaques misturavam-se, e, ainda assim, todos se entendiam. A alegria era comum, simples e partilhada, como se naquele dia o mundo tivesse decidido caber à mesma mesa.
O almoço foi um momento à parte. A comida brasileira, cuidada e requintada, trouxe sabores conhecidos para uns e descobertas para outros. Entre pratos, brindes e risos, sentia-se que cada detalhe reforçava a ideia de união — não apenas entre duas pessoas, mas entre histórias de vida, trajetos familiares e geografias distantes.
Ao recordar este casamento, o que permanece não é apenas a beleza do lugar ou a diversidade dos convidados, mas a sensação rara de harmonia. Foi uma celebração do amor que não conhece fronteiras e da capacidade humana de criar laços para além da língua, da origem ou do mapa. Um dia em que o mundo pareceu mais pequeno, mais próximo e, sobretudo, mais humano.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Uma História, Uma Casa e Uma Família
Uma História, uma Casa e uma Família
Há casas que não são apenas paredes. São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo labor e pela memória de quem ali viveu. A Casa de Sanhoane é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas, e seguiram adiante para que outros pudessem continuar.
Dizem as memórias paroquiais que tudo começa, ou pelo menos começa a ser lembrado, com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fosse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele. A casa já existia antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que ela entra na história escrita, que se fixa nos livros, que ganha rosto.
Simão morre em 1710 — e ali as escrituras silenciam o nome da casa. Mas não o apagam. No mesmo ano aparece António Delgado, “da Casa de Sanhoane”, a continuar a linhagem, como se a casa fosse um fôlego que passava de geração para geração, sempre vivo, sempre presente.
Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme:
pedra granítica, eira ampla que refletia o sol das colheitas, alpendre que acolhia conversas e descanso, e a escadaria de vinte degraus que levava ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a mesma paciência de quem espera que o tempo conte a sua história.
À frente, um cruzeiro, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez um sinal de proteção, talvez um testemunho de fé, talvez apenas um ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro.
A sala, virada para a eira, era o coração da casa: era ali que se partilhava o pão, as histórias, as dificuldades e as alegrias. Ali se discutiam casamentos, colheitas, invernos rigorosos, e as idas e vindas de quem procurava trabalho longe. Nos quartos, duas janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias. Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre Bucos.
Geração após geração, muitos passaram por aqueles degraus. Uns ficaram, outros partiram. Mas todos levaram consigo um pedaço da casa, e todos deixaram nela um pedaço de si.
Hoje, a Casa de Sanhoane continua — não apenas na pedra, mas na memória familiar, no orgulho de quem sabe de onde veio, e no esforço de preservar o que sempre foi mais do que património: foi e é identidade.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
VisitBucos, Seus Moinhos
Os Moinhos de Bucos: Guardiães da Água e da Memória
Em Bucos, aldeia de montanha moldada por vales estreitos e pela força tranquila do rio Peio, os moinhos de água ergueram-se durante séculos como verdadeiras máquinas da sobrevivência rural. Mais do que simples engenhos, eram centros de encontro, trabalho e partilha — lugares onde a água, a pedra e o esforço humano se misturavam para dar vida ao pão de cada dia.
Os moinhos de água funcionam aproveitando a força da corrente. A água é desviada do rio através de levadas e açudes, conduzida com precisão até às rodas que, ao girar, transmitem movimento ao eixo mestre. Este movimento chega às mós — grandes pedras circulares que transformam o milho e o centeio em farinha fina, base da broa que sempre perfumou as cozinhas de Bucos. Era uma engenharia simples, mas engenhosa, criada para trabalhar em harmonia com a natureza.
No curso do rio Peio, encontram-se alguns dos mais emblemáticos moinhos da freguesia, cada qual ligado a uma casa e a uma família que os mantiveram ativos ao longo de gerações. Entre eles destacam-se os moinhos da Casa do Serra, da Casa da Senra, da Casa de José, da Casa de Sanoane de Cima e da Casa da Pereira. Alguns ainda conservam a estrutura original; outros guardam apenas as ruínas que recordam tempos de intensa atividade agrícola. Mas todos, sem exceção, contam histórias de vida: de madrugadas frias, de sacas de milho ao ombro, do som cadenciado das mós, do cheiro a farinha quente e do convívio entre vizinhos.
Assim, os moinhos de Bucos não são apenas peças de arqueologia rural. São testemunhos vivos de uma cultura de trabalho comunitário, da adaptação humana ao território e da profunda ligação entre a aldeia e o seu rio. À medida que o tempo passa, continuam a ecoar — na paisagem, na memória e no orgulho de quem os viu, os usou ou apenas os guarda como parte da sua identidade.
VisitBucos em Maio
Para os amantes da natureza e da fotografia de pássaros, Bucos revela o seu lado mais encantador no mês de maio.
É quando a paisagem ganha novos tons de verde: as árvores estão brotando, cheias de vida, e os pássaros saiem do período de criação dos seus filhotes.
Nas primeiras horas da manhã, a cena é especialmente rica. Não é raro observar três ou quatro indivíduos da mesma espécie juntos, pousando entre galhos jovens, voando baixo e explorando o ambiente em busca de alimento.
Esse comportamento torna o momento ideal para quem gosta de observar, registrar e se conectar com a dinâmica natural das aves em liberdade.
Com clima ameno e luz suave, típica dessa época do ano, Bucos se transforma num verdadeiro refúgio para quem aprecia o silêncio, o canto dos pássaros e a fotografia de vida selvagem em seu estado mais autêntico.
Uma visita nesse período é mais do que um passeio — é um encontro íntimo com o ciclo da natureza.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Uma História, uma Casa e uma Família- A Casa de Sanoane de Cima
Há casas que não são apenas paredes.São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo trabalho, pela resistência e pela memória de quem ali viveu.
A Casa de Sanoane de Cima é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas e seguiram adiante para que outros pudessem continuar.
Dizem as memórias paroquiais que tudo começa — ou pelo menos começa a ser lembrado — com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fizesse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele.
A casa já existiria antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que entra na história escrita, que se fixa nos livros e ganha rosto.
Em 1710, as memórias paroquiais, referem a morte de Simão Delgado e no mesmo ano surge o casamento de António Delgado, também referido como “da Casa de Sanhoane”, dando continuidade à linhagem, como se a casa fosse um fôlego passado de geração em geração — sempre vivo, sempre presente.
Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme:pedra granítica, eira ampla onde o sol refletia o tempo das colheitas, alpendre que acolhia cereais e abrigo, a escadaria de trinta degraus que conduzia ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a paciência de quem sabe esperar.
À frente, um cruzeiro de pedra, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez sinal de proteção, talvez testemunho de fé, talvez apenas ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro.
A sala, voltada para a eira, era o verdadeiro coração da casa.Ali se guardavam o pão e as histórias, as dificuldades e as alegrias. Próximo dali que se falava de casamentos, de colheitas, de invernos rigorosos e das idas e vindas de quem partia à procura de trabalho longe.
Nos quartos, as janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias.
Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre a montanha Bucos.
Geração após geração, muitos subiram e desceram aqueles degraus.Uns ficaram. Outros partiram.Mas todos levaram consigo um pedaço da casa — e todos deixaram nela um pedaço de si.
Hoje, a Casa de Sanoane de Cima, com a família Henriques Braz, continua viva.Não apenas na pedra, mas na memória familiar; não apenas no passado, mas no presente. Um verdadeiro ecomuseu de objetos antigos, de histórias contadas e silêncios respeitados.
Um lugar onde o orgulho de saber de onde se vem se transforma em responsabilidade de preservar o que sempre foi mais do que património:foi — e continua a ser — identidade.
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