domingo, 23 de novembro de 2025

Custódio Henriques Braz (1920 - 1980) homenagem

Homenagem a Custódio Henriques Braz (1920 – 1980) Filho da Casa da Pereira, Bucos. Nas terras altas de Bucos, onde o vento traz histórias antigas e o rio Peio murmura memórias, nasceu em maio de 1920 um homem cuja vida deixaria marca profunda na aldeia: Custódio Braz, da Casa da Pereira. Cresceu entre montes, rios, campos e tradições, numa família numerosa e marcada pela dureza dos tempos. Era um de doze irmãos, muitos deles partidos cedo demais — tanto que o pequeno Custódio foi batizado ainda na barriga da mãe, Maria, num acto de fé realizado junto à Ponte da Pereira, onde a vida e a esperança se encontravam nas margens do rio Peio. Foi aluno da escola primária de Bucos, onde o professor Paulo Casalta rapidamente reconheceu o seu talento: Custódio era um aluno brilhante, dedicado, curioso e disciplinado, atributos que levaria consigo para toda a vida. Ligado profundamente às raízes da terra, seguiu o caminho dos que conhecem o valor do sol, da chuva e das estações. Tornou-se agricultor e criador de gado barrosão, guardião de uma raça que representa a força e a identidade do Minho e da Serra da Cabreira. O seu trabalho era um testemunho silencioso de resistência, amor à terra e dignidade. Casou com Ana, de Urjais, e juntos construíram um lar na mesma Casa da Pereira que o viu nascer. Deste amor nasceram seis filhos: Maria, Manuel, Albano, José, Fernando e Alda, que carregam consigo o legado do pai — o valor da simplicidade, a força do trabalho e a nobreza de caráter. Custódio Braz pertence àqueles homens que não precisam de monumentos para serem lembrados. A sua memória está nas terras que lavrou, nas pedras da casa onde viveu, na ponte onde foi abençoado antes mesmo de nascer, e sobretudo nas vidas que tocou com a sua bondade serena. Foi um homem da terra, da família e da fé — e é assim, com respeito e gratidão, que Bucos e os seus descendentes lhe prestam homenagem: a Custódio Braz, homem de coragem, de silêncio firme e de grande coração.

🎶 “Igreja Velha de Bucos – Cantiga a São João Batista”

🎶 “Igreja Velha de Bucos – Cantiga de São João Batista” I Nasceu a igreja em Bucos, no sopé da serra fria, Duma capela antiga, guardiã da aldeia um dia. Era da Casa Sanoane, de granito bem firmado, Onde o povo se reunia, com o coração apertado. Refrão Ó Igreja de Bucos, tua luz nunca se gasta, Soa o sino na montanha, chama o povo, chama a graça. Entre pedra e madeira, cresce a fé que nunca passa, São João é teu padroeiro, teu guardião na madrugada. II Quando Bucos pertencia a São Nicolau lá distante, Vinha o pároco rezar missa no silêncio palpitante. Na capela de Sanoane, ecoava a devoção, E a aldeia inteira subia, quase sempre em procissão. Refrão Ó Igreja de Bucos, tua luz nunca se gasta… III Foi no ano setecentos e setenta e cinco, dizem, Que a capela cresceu mais, para os fiéis que ali vinham. Fez-se então a grande igreja, de São João Batista, Com quatro altares laterais e o altar-mor que ainda brilha. IV O chão velho de granito, frio, firme, ancestral, Abraça o novo acrescento, feito em madeira real. E a abóbada redonda, toda pintada à mão, Mostra João Batista ao centro, entre dourados de oração. Refrão Ó Igreja de Bucos, tua luz nunca se gasta… V Pelas escadas exteriores, lá se sobe devagar, Ao coro feito em madeira, onde a voz aprende a voar. E no púlpito central, ecoa a palavra antiga, Que o mestre da aldeia lia como se fosse cantiga. Final Assim cresce esta memória, no coração dos montes, Entre romarias e sinos, entre rezas e horizontes. Igreja de São João, guardas a alma do povo, És legado de Bucos velho, és promessa de amanhã novo.

História da Igreja de São João Batista de Bucos

No coração da aldeia de Bucos, onde as montanhas se dobram em silêncio e o rio Peio murmura histórias antigas, ergue-se a Igreja de São João Batista, guardiã de séculos de fé e memória. A sua origem remonta a tempos remotos, quando uma pequena capela, pertencente à Casa de Sanhoane, servia de refúgio espiritual aos habitantes da região. Naqueles dias, Bucos pertencia ainda à paróquia de São Nicolau. Era pois o pároco dessa freguesia quem, atravessando caminhos de terra batida, subia à Casa de Sanhoane para ali rezar missa, iluminando com a sua presença o modesto templo de pedra granítica. Com o passar dos anos, porém, a devoção da comunidade cresceu, e a pequena capela revelou-se estreita para acolher tantos corações reunidos na fé. Por volta de 1877, decidiu-se então ampliar o espaço sagrado. A antiga capela foi prolongada, engrandecida, e com esse gesto nasceu a Igreja de São João Batista de Bucos, tal como hoje a conhecemos. A transformação não apagou a história anterior: pelo contrário, guardou-a nos muros espessos e no chão de granito que ainda hoje marca o limite da capela original. O novo corpo da igreja foi construído com elegância, dotado de uma abóbada de madeira, de forma redonda, que se eleva como um céu doméstico sobre os fiéis. No centro dessa abóbada repousa uma pintura de São João Batista, gloriosa e serena, rodeada por discretos ornamentos em folha dourada que brilham quando a luz da tarde entra pelos vitrais. O pavimento da igreja, tal como a sua história, divide-se em duas épocas: a pedra granítica herdada da capela primitiva, e o soalho de madeira que acompanha a ampliação setecentista, criando um diálogo silencioso entre o passado e o presente. Quatro altares laterais, além do altar-mor, compõem o interior, guardando imagens e devoções populares que atravessaram gerações. E como testemunho da arquitetura do tempo, no exterior encontramos uma escadaria de pedra que conduz ao coro alto, inteiramente feito em madeira. De lá, quem observa tem uma visão privilegiada da nave e do púlpito, o pequeno oratório elevado ao centro da igreja, de onde outrora ecoavam sermões que ressoavam por toda a aldeia. Assim permanece a Igreja de São João Batista de Bucos: não apenas um edifício, mas um livro de pedra e madeira, onde a fé, a história e a vida da comunidade se escrevem há mais de dois séculos. Uma casa sagrada que, nascida de uma capela singela, cresceu com o povo e continua a ser o seu coração espiritual.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A História da Casa de Sanhoane de Riba

Uma História, uma Casa e uma Família Há casas que não são apenas paredes. São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo labor e pela memória de quem ali viveu. A Casa de Sanhoane é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas, e seguiram adiante para que outros pudessem continuar. Dizem as memórias paroquiais que tudo começa, ou pelo menos começa a ser lembrado, com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fosse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele. A casa já existia antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que ela entra na história escrita, que se fixa nos livros, que ganha rosto. Simão morre em 1710 — e ali as escrituras silenciam o nome da casa. Mas não o apagam. No mesmo ano aparece António Delgado, “da Casa de Sanhoane”, a continuar a linhagem, como se a casa fosse um fôlego que passava de geração para geração, sempre vivo, sempre presente. Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme: pedra granítica, eira ampla que refletia o sol das colheitas, alpendre que acolhia conversas e descanso, e a escadaria de vinte degraus que levava ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a mesma paciência de quem espera que o tempo conte a sua história. À frente, um cruzeiro, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez um sinal de proteção, talvez um testemunho de fé, talvez apenas um ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro. A sala, virada para a eira, era o coração da casa: era ali que se partilhava o pão, as histórias, as dificuldades e as alegrias. Ali se discutiam casamentos, colheitas, invernos rigorosos, e as idas e vindas de quem procurava trabalho longe. Nos quartos, duas janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias. Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre Bucos. Geração após geração, muitos passaram por aqueles degraus. Uns ficaram, outros partiram. Mas todos levaram consigo um pedaço da casa, e todos deixaram nela um pedaço de si. Hoje, a Casa de Sanhoane continua — não apenas na pedra, mas na memória familiar, no orgulho de quem sabe de onde veio, e no esforço de preservar o que sempre foi mais do que património: foi e é identidade.